Quando foi a última vez que você realmente olhou para o “chão” da sua boca ou para as laterais da sua língua com a mesma atenção que dedica a uma mancha nova na pele? A cavidade oral é um dos territórios mais acessíveis do corpo humano, mas, paradoxalmente, é onde muitos diagnósticos de câncer chegam em estágios avançados. O carcinoma epidermoide (CEC), responsável por cerca de 95% dos tumores malignos de boca, não costuma pedir licença com dores lancinantes; ele prefere o silêncio e a sutileza das transformações teciduais. O CEC tem origem nas células escamosas, que revestem a mucosa da boca. Imagine esse revestimento como um tapete protetor que, sob agressão constante — seja pelo tabagismo, consumo excessivo de álcool ou até mesmo traumas crônicos de próteses mal ajustadas —, começa a sofrer mutações. O resultado é uma ferida que não cicatriza, uma mancha esbranquiçada (leucoplasia) ou avermelhada (eritroplasia) que persiste por mais de duas semanas. Na prática clínica, observamos um padrão perigoso: o paciente nota a lesão, mas, como não há dor, ele aguarda. A dor, na oncologia de cabeça e pescoço, é frequentemente um sintoma tardio, indicando que o tumor já atingiu terminações nervosas ou estruturas profundas. O tempo médio entre a percepção do sintoma e a primeira biópsia ainda é alto no Brasil, o que transforma cirurgias que poderiam ser conservadoras em intervenções reconstrutivas complexas. A anatomia do alerta O autoexame não serve para o diagnóstico definitivo — essa é uma tarefa do cirurgião de cabeça e pescoço ou do estomatologista —, mas serve como um sistema de triagem pessoal. Ao palpar o pescoço em busca de linfonodos endurecidos (os famosos “ínguas” que não regridem) e observar a mobilidade da língua, o indivíduo assume o papel de sentinela. Um cenário comum no consultório envolve pacientes que chegam com uma úlcera na borda lateral da língua. À primeira vista, parece uma afta. No entanto, a afta regride em dez dias. O carcinoma epidermoide, não. Ele endurece as bordas da ferida (o que chamamos de infiltração) e começa a ancorar a língua, dificultando a fala ou a deglutição (disfagia).
Do diagnóstico à intervenção Quando a suspeita se instala, a biópsia é o padrão-ouro. Complementamos a análise com exames de imagem, como a tomografia computadorizada ou a ressonância magnética, para entender se o tumor está restrito à mucosa ou se já invadiu mandíbula, maxila ou espaços profundos do pescoço. Em casos específicos, a nasofibrolaringoscopia é essencial para descartar lesões simultâneas na faringe ou laringe, já que o campo de exposição aos carcinógenos é o mesmo. O tratamento do carcinoma epidermoide é majoritariamente cirúrgico. A lógica é a obtenção de margens livres, ou seja, garantir que nenhum rastro celular do tumor permaneça no local. Cirurgia Minimamente Invasiva: Em tumores iniciais, técnicas como a cirurgia robótica ou a laser permitem ressecções precisas com menor impacto funcional. Esvaziamento Cervical: Muitas vezes, mesmo sem linfonodos visíveis nos exames, optamos por remover os gânglios do pescoço de forma preventiva, pois o CEC tem uma previsibilidade de disseminação linfática muito clara. Reconstrução: Graças à microcirurgia, podemos usar retalhos de tecidos de outras partes do corpo para reconstruir a língua ou a mandíbula, preservando a fala e a mastigação. A integração com a radioterapia e a quimioterapia acontece nos casos de doença mais agressiva ou quando as margens cirúrgicas estão comprometidas. O objetivo é criar uma barreira biológica que impeça a recidiva. https://drstefanofiuza.com.br/linfonodomegalia/